Adeus você - Eu hoje vou pro lado de lá!

citando Marcelo Camelo: Eu tô levando tudo de mim!!! Que é pra não ter razão pra chorar! É bom às vezes se perder/ sem ter porque/ sem ter razão …que a vida siga adiante!! braços e abraços. beijos mil destes!! amadurecência.

8/9/08

Oh! Desespero!

 

Conhece Antonio Jacinto?

Eu conheci a obra desse poeta há alguns anos

sou apaixonada pela literatura africana

me identifico/admiro gente como Jacinto!!!

Talvez já o conheças, mas aqui vai
uma breve apresentação:

 

Antonio Jacinto nasceu no Golungo Alto, 1924.

Estudou em Luanda.

Poeta - poesia de protesto.

Em conseqüência de seus envolvimentos políticos:

era militante da política anti-colonialista

e de base marxista

foi preso no campo de concentração do Tarrafal, Cabo Verde,

onde cumpriu pena de 1960 a 1972.

integrou a luta pela independência de Angola,

participando das frentes militantes do MPLA

 [Movimento Popular de Libertação da Angola]. .

Após a independência,

participou ativamente da política e cultural de Angola

foi  Ministro da Educação e Cultura de 1975 a 1978.

Morreu em 23 de Junho de 1991.

Que história de vida, hem?

 

Mas ainda tem uma segunda parte…

Ele é um encanto!!!

é um dos mais expressivos (e quiçá de toda a literatura angolana),

 

Abaixo, o meu preferido

um dos mais belos

e profundos poemas de Antonio Jacinto,

tenho a felicidade de sabê-lo de cor :

 

Carta dum contratado

 Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue…

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai…

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação…

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento…

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que ta levasse o vento que passa
Uma carta que os cajus e cafeeiros
Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres
Pudessem entender
Para que se o vento a perdesse no caminho
Os bichos e plantas
Compadecidos de nosso pungente sofrer
De canto em canto
De lamento em lamento
De farfalhar em farfalhar
Te levassem puras e quentes
As palavras ardentes
As palavras magoadas da minha carta
Que eu queria escrever-te amor…

Eu queria escrever-te uma carta…

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

António Jacinto

(" Poesia de Angola" edição M.E.C.)

 

Que lindo, não? … eu aqui uma lágrima só, quando leio!!!

Obs.: foi musicada por Fausto Bordalo Dias
http://vilamorena.podomatic.com/entry/2007-04-01T20_54_11-07_00

 

 

criado por amadurecencia    16:00 — Arquivado em: Sem categoria

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